sexta-feira, 4 de maio de 2012


TECENDO A MANHÃ

 Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele;
e o lance a outro; de um outro galo o grito que
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão

MELO NETO, J.C. Tecendo a manhã. In: Cabral – antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979, p. 17.)

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